Para quem vai perder o Carnaval de PernambucoPor Samarone Lima
Amigo, se você está longe do Carnaval de Pernambuco, e não tem como resolver este drama existencial, há duas opções. A primeira: Você vai pensar muito, lembrando da manhã de sol do Galo da Madrugada, as farras memoráveis do Acho é Pouco, as milhares de troças, subindo e descendo aquelas ladeiras intermináveis de Olinda, e vai sofrer em excesso.
Se você está longe do Recife, e começar a passar na cabeça o filminho do Carnaval do ano passado, ou retrasado, ou daquele Carnaval inesquecível de 2000, quando você conheceu alguma colombina com restos de maquiagem e um sorriso devastador, vai sofrer mais ainda.
Cuidado com essa mania de lembrar, porque você vai sofrer.Outra opção, é fingir que não está acontecendo nada, que você não vai sentir uma pontada no coração, uma fisgada no sentimento, uma luxação na saudade, quando chegar a sexta-feira, e o Lili Nem Sempre Toca Flauta sair por algum descaminho, naquela multidão de sôfregos, enlouquecidos pela festa mais aguardada do ano.
Não faça isso, amigo, esse fingimento provoca mais dor ainda. Também não venha com aquela conversa de que "Carnaval tem todo ano", porque todo mundo sabe disso, mas o pernambucano tem uma febre a mais, um desespero a mais, uma perturbação na alma. Sabe-se muito bem que ao toque de uma reles orquestra de frevo, a mais raquítica e mal paga, com músicos suicidas que tocam saxofone e trompetes fumando cigarros envenenados, doentes levantam do coma na Restauração e descem pinotando. Retornam na quarta-feira de cinzas, depois do Bacalhau do Batata, como se nada tivesse acontecido, e morrem docemente, felizes. Morrem sorrindo.Essa desculpa singela e falsa do "Carnaval tem todo ano", é uma ilusão. Não seja patético.
Se você está longe e vai tentar o fenômeno da compensação, cuidado, amigo, o erro pode ser fatal. Você não vai encontrar os Batutas de São José em nenhuma parte do imenso globo terrestre, e nenhum hino vai incendiar seu coração numa nuvem de tempestades e raios, como o hino de Ceroulas.
Desconheço povo que prometa, todo ano, ir para a lua, para ver se lá tem Carnaval. O Pernambucano faz isso todo ano, e não se cansa.Resta a humildade de reconhecer que este ano, não vai dar. Calce as sandálias da humildade, nada de pensar muito ou pensar nada.
O coração vai doer, você sabe disso.Aqui vai o único conselho. Onde você estiver, não procure os pernambucanos, amantes do Carnaval, durante esses dias. O pernambucano, longe de seu estado, em pleno Carnaval, é uma pessoa perigosa e extremada, com as emoções à flor da pele. Pode se embebedar com um copo de cerveja, e chorar se alguém falar, ao acaso, o nome de Capiba. Até a quarta-feira de cinzas, deixe-os quietos. Estarão todos inconsoláveis, saudosos, falando de pastoras, Olinto, Pedro Salgado, Guilherme, Fenelom, cadê seus blocos famosos. Todos estarão gemendo de uma saudade impossível de conter, enumerar.Chama-se Antônio Maria, o poeta que perguntou o fundamental:"De que adianta se o Recife está longe, a saudade é tão grande, que eu até me embaraço?"Acho melhor parar por aqui. Estou mexendo com emoções fortes, e será meu primeiro Carnaval fora da minha pátria, nos últimos sete anos.Sei que ainda faltam alguns dias, mas sei que naquela terra amada, todos já respiram, comem, dormem, sonham, projetam a grande festa.A todos, um lindo Carnaval.